"O elixir da longa vida é nunca deixar a nossa criança interior morrer..."
Paulo Coelho
Às vezes fazemos algumas coisas que nos remetem direto ao passado, porém a maioria de nossas ações cotidianas nos afastam cada vez mais dele. Quando falo de passado, não falo do que passou, mas do que ficou lá atrás... Daquela época boa, que pensávamos que o mundo era grande e o futuro tão distante, custava tanto para chegar domingo, imagine chegar aos vinte, trinta anos...
Era tudo tão sonhado, tão planejado e mais do que certo na nossa cabeça, sabíamos que queríamos, aliás não sabíamos... Simplesmente sonhávamos, idealizávamos tudo conforme nossos sonhos, nossas fantasias de criança... Achávamos que um beijinho curava machucados, que a metade do nosso pacote de biscoitos podia alimentar o mundo, e que nunca iríamos esquecer dos nossos amigos... Que quando crescêssemos, eles estariam lá... Para sempre... Cresceríamos, casaríamos e moraríamos na mesma rua, nossos filhos seriam amigos, nossos netos, e assim por diante... Nossos pais, nossos avós(que são pais em dobro, isto é, duas vezes melhor), nunca partiriam... Nunca nos deixariam...
E realmente estávamos certos, eles não partiram e nunca nos deixaram... Nossos amigos? Ainda pensam em nós e com toda a certeza do mundo ainda lembram dos nossos tratos... Dividindo os biscoitos não matamos a fome do mundo, mas já matamos a fome de alguém... E beijinhos curam muitos machucados, principalmente os da alma, aqueles que parecem que não ter cura...
Por que amadurecer significa abdicar de todas essas coisas? Por que matamos nossa criança interior? Por que o mundo, a realidade, a vida nos exige isso?
Não é o mundo, nem a realidade e muito menos a vida que nos leva a isso... Somos nós... Nós... Que achamos que devemos dançar conforme a música... Finjimos que não lembramos de um amigo, porque tememos que ele não lembre de nós... Não dividimos o biscoito, porque tivemos que pagar por ele, e dinheiro não dá em árvore... Beijinhos? Nem se quer olhamos as pessoas para dizer bom dia , quanto mais beijar, e também temos planos de saúde para cuidar de "machucadinhos"... E os nossos pais e avós? Quando foi a última vez que escutamos o que eles tinham para dizer? Ainda lembramos do dia que decidimos que teríamos nossas próprias idéias e que não precisávamos mais deles?
Pois é, sem querer com o tempo, ou a falta de... Descobrimos quantas coisas deixamos para trás... Quantos sonhos... Quantas fantasias... Quantas lembranças... Elas simplesmente desapareceram e só é possível lembrarmos diante de um choque, de uma perda... Infelizmente é verdade...
Quando lembrares "daquela" época...
Lembre de seus amigos, das brincadeiras, das travessuras e principalmente da lealdade "daquele" tempo...
Lembre de seus pais discutindo pra quem você sorriu primeiro, ou pior, contando suas "intimidades" para os vizinhos e te matando de vergonha, o beijo na frente da escola antes de entrar, meu Deus...
Lembre dos seus avós te tirando do castigo e te protegendo de levar uma bronca... Do beijo de sua mãe no seu dedinho que tinha prensado na porta, a dor era insuportável, mas aquele beijinho curava tudo...
Lembra do gosto "daquele" biscoito, que quanto mais você dividia mais saboroso ficava, tinha o gosto inesquecível da partilha...
Lembre das risadas gostosas, aquelas que "doíam a barriga"...
E principalmente da liberdade que tínhamos para pensar em tudo ou pensar em nada...
Lembre da pureza e sinceridade dos sentimentos...
Lembre do tempo em que as máscaras não existiam... Não tínhamos medo, nem vergonha de sermos quem éramos...
Lembre de nunca esquecer essas lembranças, das pessoas que fizeram com que elas existissem... Preserve sua essência, não deixe sua criança interior perecer...
Se isso acontecer... Estará morto...